Dor, dolorido, doido. Desvendando o questionário de dor de mcgill
Se a gente mal consegue falar sobre coisas que incomodam no nosso dia-a-dia, será o mesmo para dor? Sim né!? Dar nome ou tipo a dor depende principalmente de tudo aquilo que já nos aconteceu de desagradável ou que pensamos que possa ser desagradável. Muito do que os pacientes falam sobre a dor é completamente ignorado pelos profissionais de saúde, pois o sistema nos faz trabalhar como burro de carga ou toque de caixa.
Para um grande consolo nosso, o questionário de dor de mcgill não resolve o problema, mas mostra a maneira como a pessoa identifica aquilo que sente. Consegue dar nome a dor que tanto incomoda e que por sinal, a palavra “incomoda” está por lá.
É composto por 20 grupos de palavras onde cada uma delas é um tipo de dor. Isso dá um empurrãozinho na pessoa para que se ache alguma palavra que pareça com a dor.
Já tem uma vida útil longa de 38 anos (de 1971), mais velho que eu, e se mantém no topo dos questionários que avaliam as várias dimensões da dor. Só tem ele mesmo. Ha!
São 4 grupos grandes e divididos em 20 grupos menores:
- 10 grupos de 42 palavras relacionadas às sensações físicas
- 5 grupos de 14 palavras relacionadas da parte afetiva
- 1 grupo de 5 palavras que fala da dor de uma forma geral
- 4 grupos de 17 palavras que não se encaixaram nos grupos acima, chamado de miscelânea ou “miscelândia” (terra da miscelânea, onde todo mundo se mistura e faz o que quer)
A partir destas palavras, podemos ter uma idéia de como é a dor daquela pessoa. Os valores são somados e no final temos dois resultados: índice de dor (tipo uma nota final da dor) e número de descritores (quantos grupos foram marcados).
Claro que existem críticas construtivas a favor e contra.
1. É o único questionário que avalia várias dimensões da dor.
Aspectos físicos da dor
- sensitiva – o que sentimos.
- descriminativa – onde sentimos e diferenciamos das outras sensasões.
Interpretação da dor
- afetiva – que emoções estão envolvidas.
- motivacional – nossas reações perante a dor.
Compreensão da dor
- cognitiva – nosso entendimento da experiência dolorosa
- avaliativa – dor de uma forma geral
2. É de fácil aplicação.
Mesmo que existam palavras meio difíceis de entender, é uma boa opção para ajudar a pessoa a dar nome (qualidade) a dor.
3. É reconhecido em todo mundo.
Encha o peito e diga isso. Vai ganhar créditos com a pessoa que você atende. Valorize a ciência da dor crônica.
4. Ajuda a avaliar a evolução da dor no tratamento.
Você pode comparar os resultados em qualquer momento do tratamento. O interessante é que sempre pode haver mudanças nas respostas, mesmo que você aplique o questionário pouco tempo depois. Se a pessoa está tratando, tendo piora ou melhora, a maneira como vai descrever a dor muda.
1. Não existe a mesma quantidade de grupos de palavras.
Para as pesquisas isso é ruim e também não conseguimos comparar os grupos entre si.
2. A dor é subjetiva.
Sendo assim, o questionário pode se tornar irrelevante.
3. Compreensão das palavras
Pode ser difícil entender as palavras principalmente se a pessoa não souber o que ela significa. Não devemos explicar o significado de cada palavra senão perde a graça do questionário.
Por isso, o questionário de dor de mcgill:
- Serve para a gente entender o quanto a dor é complexa.
- Serve para a gente entender o quanto o ser humano é doido por palavras que falam a mesma coisa: dor.
- Serve para os profissionais entenderem mais sobre a “simples e fácil lombalgia ou cervicalgia” que insistimos em tratar da mesma maneira sempre.
- E por fim, serve para pensarmos mais na vida. Realmente conseguimos entender sobre a dor daquela pessoa?
Aprendam a usar, não falem mal dele.
Até mais
Pada





E como faço para interpretar os resultados? Estou interessada em começar a aplicar nos pacientes! Obrigada! ;)
Oi Ana. Essa parte do questionário de mcgill fala dos descritores. São palavras associadas a dor, envolvidas em dimensões que a dor pode atingir. Então, esse questionário pode ser aplicado novamente após algumas semanas ou meses de tratamento, para verificar se os descritores mudaram. Se antes eram sensoriais e agora são mais afetivos. Essa é a análise mais interessante.
abraços