Um congresso osteopático e mais ou menos doloroso: minha primeira vez!

dor e osteopPela primeira vez pude participar de um evento sobre osteopatia, uma das várias especialidades que o fisioterapeuta brasileiro pode se dedicar na pós graduação. E isso foi no Congresso Internacional de Osteopatia (CIOST) em Campinas que reuniu dolorosos colegas de todo o Brasil e cantos do mundo.

Um evento enorme, com cerca de 1000 pessoas envolvidas em prol da osteopatia, do seu desenvolvimento e aprimoramento para o fisioterapeuta brasileiro. Confesso que fiz minha inscrição com certo receio de entrar num mundo totalmente oposto ao meu. Uma vez fui a um evento de atividade física em São Paulo onde me senti um total estranho no ninho. E estava vendo este filme de suspense novamente.

Entretanto, para minha agradável surpresa, o filme foi um mix de comédia romântica e aventura, com um protagonista pra lá de doloroso. Ator com vasta experiência e uma legião de fãs “descontrolados”, Dr. Still (pai da osteopatia) deixou como legado suas idéias, conceitos, filosofia de vida, de trabalho e as formas de cuidados com a saúde, que eram ousadas e bem diferentes da medicina tradicional. E isso está no sangue do fisioterapeuta especializado em osteopatia por aqui. Still até apareceu no congresso, bem ao estilo Gandalf (senhor dos anéis) misturado com Sherlock Holmes.

Talvez o ponto mais interessante (e apaixonante) foi ver o brilho nos olhos de todos os que tem envolvimento com a osteopatia. Sim, são seguidores de uma causa, dos ideais e reproduzem isso a partir destes moldes. Não sei se o “brasileiro, carioca e parceiro” Dr. Still pensou nisso ou queria isso. Só sei que o cara é uma lenda e o que ele falou ou postulou virou lei.

A osteopatia em seu centenário de existência me deixou um tanto quanto curioso. Ao mesmo tempo que sua filosofia se entranha com os conceitos e técnicas, vemos uma ciência que pouco se encaixa nos moldes atuais. Talvez porque necessite de um aprimoramento ou evolução? Ou porque são “old school” mesmo e querem se manter assim? O fato é que fazer um ensaio clínico me parece meio impossível, tendo em vista alguns complicadores:

– Existe algum método de avaliação exclusivo? (Aparentemente não).

– Mãos e olhos são força tarefa da avaliação? (Extremamente subjetivo e pouco confiável).

– Os meios de tratamento são específicos? Como seria uma proposta terapêutica? Manipular tecidos do corpo é “fazer osteopatia”?

– Como reproduzir o estudo sendo um não fisio osteopata? (Não reproduz!).

Estes são pontos que me fazem refletir se realmente vale a pena inserir a osteopatia nos moldes científicos clássicos ou ter um método mais qualitativo de pesquisa. Pude ler os posters de ensaios clínicos no congresso que usaram, por exemplo, manipulação articular como tratamento para a dor. Me parece simplório demais para tratamento osteopático. Acredito que para dar “certo”, a filosofia precisa “dar um tempo” para os métodos e técnicas de tratamento. Mas, como separar a filosofia da intervenção em si na osteopatia? Não separa! Esse é o ponto principal. Se a manipulação articular, por exemplo, tem resultados semelhantes no sistema nervoso sendo ou não específica, não há então diferença entre profissionais, sendo esta uma habilidade puramente motora. Então chamar osteopatia de manipulação é como chamar fisioterapia de tratamento (como os convênios de saúde fazem e os fisios aceitam).

Sim, a essência da osteopatia é a sua filosofia! É como o Still entendeu a vida, ambiente, distúrbios e a morte. E, da mesma forma que se cantou “não deixe o samba morrer, não deixe o samba acabar”, então não separe mente e corpo, não separe a filosofia da técnica!

Um congresso como o CIOST não pode estar centrado no que apenas um “cara pacato” achava. Será que depois de tantas décadas, ele estava certo? Se você ama o que o cara diz, acredita e não pensa, apenas apoia e age, então sim. Seu legado perdura por longa data e seu instagram bombaria facilmente. Porém, se você é curioso como eu, e quer ver a ciência estudar a osteopatia, então nada é simplesmente da “boca pra fora”. Ele poderia até estar certo, mas suas idéias nunca estarão a salvo.

A osteopatia veio para ficar e transformar a vida de profissionais e pacientes. E nisso o CIOST foi impecável em mostrar! Quanto mais filosofia, mais adoração. Quanto mais ciência, mais crítica. Essa é a vida do mundo moderno, exigente e “pra ontem”. Ver tantos amigos e colegas encantados pela osteopatia e realizados profissionalmente me deixa mais que doloroso no final das contas. E mesmo que, até o momento, me dedique exclusivamente ao estudo da dor, já garanti meu passaporte para os próximos CIOST’s.

Artur Padão

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