Sensibilização Central: O novo posto ipiranga do estudo da dor

dor e SCQuando você pergunta alguma coisa e a pessoa responde “posto ipiranga”, você já sabe: lá você tem de tudo e todas as dúvidas são resolvidas. É como uma enciclopédica ou google maps de localização. E hoje, quando você pensa em dor crônica, rapidamente vem aquela justificativa nervosa e sensível chamada “sensibilização central” (SC)

A mais nova culpada da dor crônica, a SC, recebe todos os holofotes atuais, botando o sistema nervoso em xeque e justificando a dor que não melhora de jeito nenhum.

O que é SC, afinal de contas? Pensem num sistema de alarme de uma casa contra ladrões. Uma série de sensores estão espalhados na casa e, ao menor sinal de movimentos, tudo dispara. Isso avisa aos donos (se estiverem em casa), aos vizinhos (se gostarem dos vizinhos) e a polícia e/ou agência de segurança para “sair chegando”. A esse alarme que dispara frente a essa ameaça em potencial, chamados de SC.

É normal? Claro que sim. Precisamos nos proteger, precisamos de segurança 24h por dia. E esse alarme diminui, diminui e desliga quando não há nada a temer. Na dor aguda, isso tem tudo a ver. Mas, vejamos o exemplo. Se você vai atravessar a rua com o sinal fechado para os carros, e um dos carros continua andando rápido, isso também é uma ameaça. Nosso sistema vai ligar seus alarmes, da mesma forma que na dor aguda, mas provavelmente não teremos dor. No mínimo, sua reação (se você for carioca) é ou ficar na frente do carro e desafiar o motorista ou xingar da mãe para baixo.

Na dor crônica, entende-se que a SC como alarmes funcionando de forma anormal:

– ligado além da conta (sensibilização persistente)

– liga mais rapidamente agora (somação/wind up)

– não desliga (desinibição)

– cada vez mais ligados (aumento dos campos receptivos)

– varia sua intensidade (sensibilização persistente)

Por isso, existe uma proteção excessiva do sistema, com reações amplificadas e muitas vezes uma dor além da conta. Isso sim é esquisito e por isso muitas vezes dor crônica é associada a SC. Mas, na verdade, qualquer situação física, emocional, social, cognitiva, pessoal ou ambiental que mexa como nossos alarmes, o sistema nervoso reage. Veja alguns exemplos clássicos de SC:

– lesão de nervos – – dor neuropática

– gripe – – aumento da atividade imunológica

– estresse – – mais hormônios estressantes

– briguei com a mãe – – emoções a flor da pele

– intolerância a glúten e lactose

– sensibilidade a luz e barulho

– sensações de inchaço no corpo (sem inchaço)

– fator genético – – mais sensível que outras pessoas

Então podemos dizer que existe uma SC do bem e outra do mal, certo? He-Man x Esqueleto?

É melhor dizer que existe uma normal e outra anormal, tomando cuidado para não usar o nome da outra em vão. Dor crônica não necessariamente teremos SC envolvida. Por isso, não devemos generalizar o que já é por si só generalizado pela literatura e colegas dolorosos. A ciência tenta chamar essa SC anormal de “dor algopática”. Outros tentam chamar de “chilique” do sistema nervoso.

Enfim, o novo posto ipiranga do estudo da dor é a SC, onde você explica tudo o que acontece com o sistema nervoso. Olha a confusão hein? Emoções a flor da pele, por exemplo, chamados de sensibilização cognitivo emocional, que também não deixa de ligar seus alarmes.

Posto ipiranga da dor, obrigado!

Artur Padão

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