Prática Baseada em Evidências (3): Confundidores da dor!

Quando dizemos que um tratamento funciona, a quem devemos dar o elogio? Ao paciente? Terapeuta? A técnica em si? Ao guru? Entendo que o elogio é para aquele que a escolheu, mas é tão forte a adoração por técnicas que o elogio vai para a técnica.

Um tratamento tem resultado positivo quando somamos uma série de componentes. Os efeitos da técnica em si devem contribuir por mais ou menos, estimando-se, um pequeno chute, de 60% do resultado positivo. Estudos do tipo ensaios clínicos tentam ao máximo isolar o efeito das técnicas em si para entender qual o efeito “puro malte” da técnica em si.

Levando isso para o humor ao estilo Monty Python, é como se a gente nem desse bom dia, boa sorte ou tivesse qualquer conversa sobre a novela, sobre a dor ou qualquer coisa, o que é normal em qualquer rotina de serviço de saúde. Justamente para tentar “filtrar” o poder de ação de um tratamento. Reduz o que chamamos de viés ou “bias”.

Sabendo que a vida dolorosa do atendimento tem que ter algum calor humano (pelo menos espera-se), entram neste jogo de gato e rato o que chamamos de fatores confundidores. Este fatores estão inseridos no efeito de melhora com os tratamentos, bem juntinho da técnica em si. E são chamados de confundidores porque frequentemente confundem a cabeça do terapeuta indiretamente, ou seja, o terapeuta acha que a melhora é pela técnica em si e, na verdade, não é não.

E dentre eles, encontramos dolorosamente:

– História natural – – mamãe natureza agindo de acordo com suas leis

– Regressão para a média – – o acaso, a sorte, a energia positiva e “estar preparado” para receber a terapia criam um ponto fora da curva

Efeito Hawthorne – – leia sobre o estudo de hawthorne nos EUA. Ele mostrou que incentivar, elogiar, ajudar, motivar e “energizar” as pessoas fazem com que elas modifiquem seu comportamento e com maior produtividade. Fazer isso com seu paciente pode lhe garantir menos dor. “paciente que todo mundo quer atender”.

Placebo – – Ahhh, o placebo! o tratamento falso que traz alivio da dor.

Viés de confirmação – – Eu amo minha técnica, então o paciente vai melhorar sim. Eu digo que a técnica é feita pra ele, então o paciente vai melhorar! Confirmar as próprias certezas!

Viés de memorização – – lembrar dos eventos passados pode ter maior influência (termo estatístico)

Relação terapeuta x paciente – – uma boa relação garante melhores resultados

Expectativas positivas – – vai melhorar, vai melhorar, vai melhorar!

Então, quando o alivio da dor chegar, lembre-se que a técnica é apenas mais um componente de melhora. E que se um estudo do tipo ensaio clínico mostra que o grupo experimental conseguiu no máximo 40% de efeito, aquele tratamento é pouco eficaz.

Você não precisa amar a PBE, mas sem a PBE você pode estar chutando explicações sobre a dor! E não queremos que o paciente lhe dê de presente um “pé nos glúteos”.

Artur Padão

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