O lado negro da neurociência da dor

Um dos grandes avanços para o estudo da dor foi no campo da pesquisa em neurociência. Muitos mistérios foram revelados e a principal afirmação “a dor vem do cérebro” foi como um golpe de vento para focar os olhos no cérebro em curto circuito quando a dor não melhora. Os exames de ressonância funcional, mapeamento cortical e uma série de outros estudos científicos vem permitindo um coração cada vez maior para se amar a neurociência da dor.

O que muitos desconhecem ou simplesmente ignoram é: como se chegou a tudo isso, como começou?

Reposta simples: experimentos um tanto quanto cruéis com animais. Não é novidade o uso de animais para pesquisa, de todos os tipos e tamanhos, com cérebro pequenos ou grandes. Hoje existe uma regulamentação pesada e criteriosa para usar animais em pesquisa. Mas, quando não existia, um episódio marcante da neurociência foi um dos pontos de partida para mostrar que o cérebro muda na alegria, na tristeza, na saúde e na doença.

Este evento ficou conhecido como os “Macacos de Silver Springs”. O psicólogo Edward Taub do Instituto de Pesquisa Comportamental nos Estados Unidos realizou experimentos científicos em 17 macacos das Filipinas para estudar o que acontecia no cérebro quando os nervos eram desconectados e os macacos perdiam as sensações de seu corpo, de apenas um dos lados. Depois, ele prendia o lado ainda funcional, o que obrigava os macacos a usar o lado onde se havia perdido a sensação.

Relatos mostram que além de ser um experimento cruel e sem autorização de comitê de ética e pesquisa, os macacos viviam em condições “desumanas”, se mutilavam devido a perda das sensações, tinhas feridas pelo corpo e o bicho pegava. Um ativista conseguiu trabalhar disfarçado no laboratório e denunciou os experimentos as autoridades. Foi o maior “auê”!

O lado bom disso tudo (em termos científicos) foi que os macacos conseguiram reutilizar o membro “inutilizado” no experimento e seus cérebros mudaram, mostrando novas conexões que ainda eram desconhecidas. Quando o bicho pega, a gente se vira. E o cérebro também. Além disso, esse modelo de experimento ficou conhecido adiante entre os fisioterapeutas como Terapia de Restrição e Indução do Movimento, que mais tarde foi utilizada para o tratamento de pacientes pós derrame.

A neurociência da dor tem o seu “Darth Vader”. Por isso, nem tudo é tão maravilhoso assim como se afirma. Mas, lembrem-se que grande revoluções científicas partiram de catástrofes, crueldades e guerras. E o lado negro da neurociência da dor está criando terapeutas de laboratório.

Na minha opinião, colocando as cartas na mesa, um “viva” singelo e humilde para a neurociência da dor.

Artur Padão

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