Desvendando os mistérios da dor: A sensibilização central – Parte 2

dor e sensNunca é tarde para relembrar, mas a sensibilização é nosso precioso alerta de ameaça, “aumentando seu barulho” quando necessário. Na transição da dor aguda para a dor crônica, o alarme parece não desligar, mesmo que não exista mais ameaça por perto. Por isso, a sensibilização se torna um dos principais meios para manter a dor persistente.

O próprio sistema nervoso, já bem nervoso, envia o pessoal dos serviços gerais para reverter essa “barulhenta” situação dolorosa. Pelo menos tenta. Um exemplo seria o Sr. Parassimpático, especialista em “preguica”, e a Sra. Imunológica, pseudo síndica e especialista em combate corpo a corpo celular. Ambos tentem a reduzir a sensibilização central, mas nem sempre são bem sucedidos.

Vamos explorar, então, 4 mecanismos que, de uma forma geral, pressionam constantemente o botão de alarme.

Na periferia:

1. Inflamação neurogênica (a eterna saideira) – Após lesões, é comum ter a inflamação e liberação de substâncias irritativas, deixando a região mais sensível a tudo e todos. Isso mantém as fibras C e Ad enviando constantemente sinais de alerta ao sistema a medula. Caso isso persista, os nervos se tornam sensíveis, provocando uma segunda liberação de substâncias químicas, a chamada inflamação neurogênica, nossa eterna saideira.

No centrão medular:

2. Somação temporal (a última cutucada). Quando os estímulos que cutucam e cutucam não param, vão se somando e se acumulando ao longo do tempo. Chega uma hora que uma simples cutucada com vara curta produz uma resposta amplificada, intensa, como a dor. Isso também é conhecido por “Wind-up”. Agora, com a cobra irritada (sistema nervoso sensível), vai levar um tempo até que ela desligue seu alerta. “Seu engraçadinho”.

3. Aumento dos campos receptivos (o estacionamento) – você está lá andando para pegar seu carro após o jogo e um torcedor do time rival joga uma bomba caseira (provavelmente do flamengo). Ao explodir, o alarme do seu carro dispara e, logo em seguida, acontece o mesmo com vários carros ao redor. A “onda de choque” do estímulo ativa os neurônios ao redor do segmento medular sensibilizado, provocando o aumento dos campos receptivos. Com isso, a área onde sentimos dor no corpo se espalha para outras regiões do corpo.

No centrão cortical

4. Falha dos mecanismos inibitórios (o bar que não funciona) – De que adianta ter um bar com várias bebidas e não ter copo para servir? Os clientes se irritam. O sistema nervoso se irrita demais, se sensibiliza em excesso e o quebra quebra começa. Várias “bebidas” inibitórias como a dopamina, endorfina, serotonina, noradrenalina e a GABA não conseguem ser “servidas” adequadamente. Faltam copos para isso.

Estes 4 simples e recorrentes mecanismos podem fazer com que a dor se torne um problemão para muitas pessoas. Reduzir os alarmes é preciso. Cortar pela raiz é preciso. Como fazer isso? Cenas quentes para a parte 3.

Um abraço doloroso e sensibilizado

Artur Padão – Dorterapeuta

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