Desvendando os mistérios da dor: a dependência do tratamento

Qualquer tratamento, independente da condição de saúde, precisa ter começo, meio e fim. Como em vários filmes e séries de TV, espera-se que isso ocorra. As vezes, para aumentar o mistério doloroso, isso não fica tão claro, o que gera expectativas quanto ao que vai ou não rolar. E da mesma forma que no cinema, os pacientes esperam ao a estilo Roupa Nova, ou seja, um “começo, meio e fim” de seu tratamento para a dor.

Vários fatores impedem que essa lógica ocorra na prática, como a falta de metas realistas, expectativas irreais, comunicação ineficaz e a pseudo empatia. Tudo isso pode ser conversado. Mas, nada mais complexo para atrapalhar o estilo Roupa Nova de ser do que a dependência do tratamento.

As dependências variam desde a relação entre terapeuta e paciente, do efeito da intervenção ou até mesmo a compulsão por algo, como ocorre no consumo de medicações em vários casos. Esse é um mundo a ser explorado, se claro o paciente permitir.

As emoções a flor da pele chegam junto aos comportamentos dependentes. As vezes ir ao tratamento é o evento do dia ou a única coisa que foge da rotina dolorosa. Cria-se uma necessidade de estar lá, uma simbiose entre dolorosos e doloridos. E a dependência afetiva existe sim. Muitos pacientes chamam de “psicólogos” ou “como se fossem psicólogos” as pessoas que realmente dão atenção. Isso não é nada bom, pois afasta o paciente da alta, fica sempre no meio do caminho.

Tratamentos com efeitos analgésicos imediatos e fortes tendem a ser bem curtidos e potencialmente recreativos. Quem não quer um efeito “cannabis” sem ser “cannabis” de fato? E como dizia o poeta Russo: “Minha papoula da índia, minha flor da Tailândia, és o que tenho de suave”. Esse sim dependia. Vários meios físicos tem o mesmo padrão ao estilo “quando acaba a gente quer denovo”, como manipulações (com estalo, claro), liberação miofascial, calor local e por ai segue. Exercício aeróbico em excesso quando chega no pico de liberação das endorfinas, faz muita falta também.

Depender do tratamento é como nunca ter fim. Ser independente é ter autonomia própria. Caso contrário, é como ter uma carteira de motorista e todo mundo dirigir o carro por você. Doenças crônicas geram dependência de tratamentos. Mas, dor não é doença. Ninguém precisa ou precisaria depender de tratamentos para a dor para seguir sua vida. Mas, como ninguém é igual a ninguém, as pessoas dependem sim, por vários motivos e cada um com seu contexto.

É isso ai. Dependa da sua independência e não da sua dor!

Artur Padão

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