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Operação pente fino na dor crônica

26, abril, 2010 2 comentários

A busca incansável por exames e tratamentos para a dor crônica deixa os profissionais de saúde e pacientes enlouquecidos, tanto no sistema público quanto no privado.

Por ter vários problemas e componentes associados, a dor crônica então necessita de uma investigação a fundo (pente fino) para se identificar duas frentes importantes:

Quais são os possíveis fatores que estão causando a dor (se forem possíveis de serem encontrados) ou que mantém a dor persistente

- físicos: doenças, patologias, síndromes, descondicionamento físico, lesões;

- psíquicos: depressão, ansiedade, irritação, cinesiofobia, algofobia, comportamentos de evitação, estresses, humor problemático, pensamentos negativos;

- sociais: status socioeconômico, cultura, religião, tecnologia, trabalho, lazer, família e amigos.

Investigar a fundo faz parte do processo.

Para isso, nada melhor do que uma equipe multidisciplinar trabalhando em conjunto (interdisciplinar) para que a pessoa com dor crônica possa ter essa investigação a fundo, que é fácil na teoria, mas difícil na prática. Porém, é muito comum não encontrarmos nada que justifique a dor.

Uma simples “tendinite” ou “hérnia de disco” não cronifica a dor de ninguém, muito pelo contrário. Se fosse apenas isso, era só tratar a inflamação do tendão e tirar a hérnia de disco que se resolvia o problema. Tal milagre na dor crônica não é e não será possível. A situação se complica quando achamos que existe milagre ou cura para a dor. Isso é uma crença que precisa ser modificada. Cuidado pessoal: quem lhe prometer cura para a dor crônica também deve acreditar no coelhinho da páscoa. Quando for assim, envie de presente o coelhinho do Monty Phyton.

A operação pente fino inclui:

.Avaliação Médica – procura por problemas de saúde, doenças, patologias, síndromes que causam e mantém a dor persistente; pede exames diversos para ajudar a entender o porquê de tanta dor. Será que vale a pena?? Adoram achar que remédios resolvem tudo. Lamento informar, mas o modelo biomédico não se aplica nestes pacientes. A doença é a dor crônica e o remédio não promove cura.

Avaliação Fisioterapêutica – procura por problemas de movimentos e posturas, que afetam a função dos músculos, articulações e os hábitos do cotidiano, causados ou não pelos problemas que os médicos encontram. Adoram achar que resolvem tudo com as mãos. Ahhhh, doce ilusão. Também adoram dizer que quando as técnicas falham o problema do paciente é psicológico. Antes disso, por favor, estudem a definição de dor.

.Avaliação Psicológica – procura por alterações de comportamento, personalidade e reações emocionais que podem ou não tornar-se doença e que ajudam a dor a ficar persistente. Adoram colocar os problemas da vida e a própria dificuldade em lidar com a dor à frente. E não é que tem razão mesmo??? Pior que tem muito sentido quando a dor fica crônica.

.Avaliação Odontológica – o dentista procura por doenças e alterações na mastigação e dentes que possam provocar dores de cabeça, na face, pescoço, na boca. Está se tornando muito comum os problemas nos dentes, inflamações, infecções na boca provocarem ou aumentarem dores. O dente é super sensível. Escovem os dentes, usem fio dental e flúor sem álcool, por favor.

Vários outros profissionais poderiam ser citados, não se sintam excluídos, mas esse ai é o meu dia a dia.

.Exames de imagem – pouco ou nada acrescentam no pente fino. Então vale a pena gastar tanto dinheiro nisso? Vale simmmmm! Esses exames não vão mostrar a dor crônica, mas mostram os problemas graves como infecções, tumores, doenças diversas. Os fisioterapeutas podem usar os exames de raio-x para comparar as curvas da coluna, instabilidades, ganhos de amplitude na evolução do tratamento; podem usar os exames de ressonância magnética para ver os músculos. Mas esse só para os fisioterapeutas que querem mesmo ver seus resultados.

.Uso de escalas – são questionários com diversas perguntas, onde pessoas passaram anos e anos para desenvolver e que ajudam os profissionais a entender como anda a qualidade de vida (ex. SF-36, QIF para fibromialgia), a dor propriamente dita (Questionário de McGill, DN4, Escala visual ou numérica), os aspectos psíquicos e emocionais (BDI e BAI para depressão e ansiedade, Questionário de estratégias de coping), comportamentos (tampa de cinesiofobia, Comportamentos de evitação e medo), capacidade funcional (Índice de Oswestry, DASH). Ajudam a comparar a evolução dos tratamentos.

Será que isso tudo é suficiente para passar um pente fino na dor crônica? Cientificamente sim, mas acho que é muito pouco ainda. Mesmo fazendo isso tudo, com o melhor tratamento, cerca de 50% das pessoas com dor crônica não melhoram. Porque????????????????????????????

Boaaaaaaa pergunta.

Comentarei sobre isso mais adiante.

Enquanto isso saiba o seguinte: a avaliação errada da dor é principal causa do mau resultado.

Abraços

Artur Padão Gosling – Pada