Dor crônica: perdendo para ganhar?

Dona Maria, casada, 1 filho adolescente, trabalha como empregada doméstica e sustenta a casa. Seu salário cobre as despesas e ainda sobra uma grana para a cerveja do fim de semana. Seu marido está desempregado e passa o dia fora fazendo bicos. Uma vida pacata cheia de altos e baixos.

Um dia, Dona Maria pega uma caixa de mal jeito e tem uma crise de dor lombar. “Corre” para a UPA na tentativa de atendimento médico. Depois da quinta tentativa consegue sua consulta e sai de lá com a clássica receita de analgésicos, antiinflamatório e a recomendação mais usada em todo mundo para dor lombar aguda: repouso.

Dona Maria pergunta: “Como posso fazer repouso se eu preciso trabalhar? Quem vai trazer dinheiro para casa”? Seu médico lhe responde: “a dor vai passar”!

Uma, duas, três, quatro semanas, 2 meses depois a dor não passa e Dona Maria continua em casa fazendo repouso. E o que será que aconteceu com o sustento da família? Cadê o dinheiro que tava aqui?

Na verdade, tivemos uma inversão de papeis. Dona Maria, com dor persistente e agora crônica, afastada de seu trabalho e funções, estava cuidando de sua saúde. Mas, também estava recebendo algo que nunca havia recebido: cuidado de sua família, atenção do filho, carinho do marido, uma boa refeição diária. E seu marido e filhos foram em busca de emprego, começaram a sustentar a casa, cuidando da Dona Maria.

E Dona Maria, depois de 2 anos de dor crônica, continua com dor crônica e em casa, sendo cuidada e nunca mais voltou a trabalha como empregada doméstica. Poderíamos chamar este cenário de “Ganho Secundário”, ou seja, houve uma perda primária como emprego, finanças, uma posição de destaque ou até mesmo cuidado e atenção, para ganhar de outra forma. Eu prefiro chamar de “perder para ganhar”, pois talvez Dona Maria nunca teria tido a oportunidade de ter o que ela passou a ter após seu adoecimento doloroso.

Há também quem diga que o Ganho Secundário é prejudicial e perpetua a dor crônica e o comportamento de se manter doente, certo? Certíssimo! Mas, quem seremos nós para julgar as perdas e ganhos das pessoas com dor? Apenas sei que Dona Maria está mais feliz em casa sendo cuidada, apesar das queixas de dor crônica lombar e limitações em sua vida. Se ela quiser ter o que “perdeu” de volta, vai perder para ganhar também.

Chegadas e partidas! Perdas e ganhos! Perder para ganhar! É apenas trocar uma dor por outra!

Artur Padão

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