De onde vem a dor no joelho?

Lá pelas bandas do meu TCC de 2002 a 2004, quando estudávamos a dor anterior no joelho, o discurso era: quais as principais estruturas causadoras da dor anterior no joelho? A resposta estava na ponta da língua de todos os professores estudiosos: pele, músculo, articulação, nervo, gordura e osso. Sendo um CurtiDor anatômico, mais precisamente, temos os retináculos medial e lateral, osso subcondral patelar, sinóvia anterior, cápsula articular, tendão patelar, gordura infrapatelar e nervo infrapatelar.

A estimulação excessiva destas estruturas seria a causadora de dor no joelho, ligando os nociceptores e os fisioterapeutas acreditavam serem capazes de identificar sintomas ou características clínicas em cada mecanismo estrutural ou biomecânico provocativo de dor. A gente tentava vários tratamentos biomecânicos manuais, ativos e, principalmente, com taping (bandagens de esparadrapo) para resolver os dolorosos problemas.

Hoje, ainda se raciocina desta forma, buscando uma causa estrutural, patológica, lesiva ou inflamatória que tenha esta responsabilidade. Se ainda discutimos isso, será que estas informações são relevantes a este ponto? Será que ainda vale a pena gastar nossa energia em identificar o tipo de estrutura que dói?

Os avanços da neurociência e neurofisiologia da dor seguem um caminho diferente, levando ao sistema nervoso central (mais precisamente o cérebro) uma culpa sem culpa. Isso significa que é um desejo extremo de dizer de onde vem a dor, e talvez a gente esqueça que dor é um evento de resposta e não uma fonte de informação local. Isso significa que os tecidos do joelho enviam informações de possível lesão quando for necessário. E isso não é dor.

Quando pensamos que existe uma fonte tecidual local de dor, tipo uma articulação inflamada ou um estresse sobre o tendão, estamos dizendo que a dor viaja do tecido ao sistema nervoso, passa pelo cérebro e volta para o joelho. Mas, volta na forma de que, se a dor já veio da periferia? Isso é informação truncada! Quando pensamos desta forma, estamos chamando a dor de nocicepção, que nada precisam ter a ver uma com a outra.

Se a dor está no joelho e não vem do joelho, cadê então?

Sendo a dor uma resposta a ameaça, então a fonte geradora de dor está em nossos neurônios, ou melhor, um grande grupo deles que precisam trabalhar em equipe para a dor aparecer. Parece difícil de aceitar, mas essa é a explicação científica do momento. Então, se pensarmos bem cientificamente, vale mais a pena entender o que acontece no sistema nervoso para o joelho doer do que pensar em qual estrutura “aborrecida” no joelho deve estar doendo. A recíproca também é verdadeira, e muitos esquecem dos tecidos ao redor do joelho como fonte de ameaça.

A dor é uma experiência complexa, onde quebramos a cabeça muitas vezes para entender o processo de adoecimento de cada pessoa que se queixa. E o joelho, acaba levando uma culpa que não é dele, pelo menos para quem não pensa nele.

Não joelho, a culpa não é sua. Você é uma estrela de cinema, mas que deveria estrelar na sessão da tarde.

Artur Padão

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