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Dor nas costas, e agora?

A dor na coluna é uma das grandes responsáveis por afastamento do trabalho. É também grande fonte de sofrimento e incapacidade das atividades do dia-a-dia. Mas porque será que isso é tão difícil de entender e tratar? Porque então existem diversos tratamentos como fisioterapia, medicações, cirurgias, psicoterapias e são tão falhos? Nem todos claro, mas quanto mais crônica for a dor maior a chance de falha. Todos apontam logo as soluções. Hoje eu aponto os problemas.

—- Acredito que boa parte da cronificação das dores seja responsável pelo próprio profissional de saúde. Veja alguns itens que levam a isso:

1. Oferecer “cura” para a dor nas costas

Cura ou milagre são palavras complicadas que existem na religião, em crenças e algumas doença. Já a doença “dor crônica” não tem cura. Por favor, não caiam na malha fina de acreditar que artrose, degeneração, outras patologias são milagrosamente curadas com qualquer tipo de tratamento. Mesmo pela inocência ou o não conhecimento, isso se chama conversa pra boi dormir. Nem a celulite tem cura.

2. Tratar apenas com “monoterapias”

Está mais do que comprovado que o tratamento multidisciplinar é mais eficaz e a reabilitação física minimiza o uso de remédios. Os fisioterapeutas adoram achar que podem resolver tudo com as mãos, os médicos com remédios ou bloqueios, os psicólogos com bate papo, dentistas com placas na boca. Se juntarmos todos, cada um com sua visão fica mais fácil ou fica então uma briga sem fim.

3. Cirurgia antes do tratamento conservador

A maioria dos casos de dores lombares e cervicais podem e devem ser tratadas com meios físicos de reabilitação, sem claro esquecer da saúde mental. Entretanto temos de dar créditos as chamadas cirurgias minimamente invasivas como a radiofreqüência, que ajudam e muito na mudança da tensão muscular. Para quem não conhece as artrodeses (cirurgia que ajuda na fusão das vétebras), quando bem indicadas tem um resultado excelente, porém as pesquisas mostram os problemas musculares como atrofias severas e muita tensão em músculos acima e abaixo da área operada. Grande problema esse para os fisioterapeutas.

4. Prepotência

“Se eu consigo resolver tudo, pra que outro tratamento?” essa frase ela demonstra como os profissionais de saúde são desunidos e ficam brigando entre si pela autonomia dos pacientes. Ficam empurrando com a barriga. Ai o médico não quer encaminhar para o fisioterapeuta porque ele acha que fisioterapia não adianta de nada e o fisioterapeuta não quer encaminhar para o médico porque vai encher o paciente de remédio e meter a faca. Brigas sem fim, quem se dá mal no final é o paciente porque se um acordo fosse feito, os profissionais se comunicassem talvez o paciente fizesse todos esses tratamentos e ficasse bem. O Ato Médico, por exemplo é hoje a verdadeira prova de incapacidade dos profissionais de saúde do Brasil. Mas terá solução um dia.

5. Ignorância

Ninguém sabe de tudo e de todos, então cada um no seu cada um e em prol disso trabalhemos juntos para tratar a dor crônica. Todas essas palavras negativas e provocativas levam ao lado negro da força. Um exemplo forte é mandar o paciente parar todas as atividades que ele exerce pra que ele fique em casa sem fazer nada, assistindo TV, ou seja, ficar em repouso. Desde quando isso é uma orientação? Quando a gente não conhece deve pelo menos estudar, é a exigência mínima. Mas nãooooo, sempre tem algo a mais para se fazer ou inventar.

—- Mas também os pacientes se auto ajudam na cronificação da dor:

1. Crenças sobre a dor – Não adianta, a fé leva o ser humano a fazer misérias e maluquices o tempo todo. Se a pessoa acha que Deus irá curar a dor severa ou tirar uma hérnia lombar, quem sou eu para discutir com o Deus dela? Enquanto isso, a dor continua e torna-se crônica. É melhor ter fé para o alívio da dor. Se a pessoa acha que tem que sentir essa dor toda porque isso faz parte de um castigo pessoal ou terá um propósito em sua vida ou que disseram para ela que é normal assim sentir isso tudo, e agora? Calmamente, sem ferir a fé e religião, devemos explicar que sentir dor é normal sim, mas sentir dor o tempo todo, queimando, ardendo, maltratando não é normal.

2. Comportamentos de dor – as reações quando sentirmos dor são muito individuais que vão desde gritos até movimentos bruscos. Vemos isso também na maneira como a pessoa anda, como ela fala sobre a dor, timbre da voz, expressão no rosto. Mas se a dor alivia a reação não pode ser a mesma, tem que mudar. O comportamento reflete na contração dos nossos músculos. Um “mal comportamento” mantém os músculos contraídos o tempo todo ajudando a dor a ficar mais e mais crônica.

3. Pensamentos negativos – já dizia minha mãe que “o poder das palavras influencia no nosso dia-a-dia” e que levaria ao lado negro da força (essa é o Mestre Yoda). Para quem não sabe, quando pensamos negativamente sobre a dor, que nunca vai melhorar, óhhhh como eu sofro de dor, tento tratar e nada melhora, isso faz com que os movimentos e posturas do corpo fiquem comprometidos e pensando assim, seu foco de vida sempre será a dor e nunca seu tratamento e melhora.

4. Busca por vários tratamentos – ir de profissional em profissional, em áreas diferentes, o tempo todo, não é o ideal. Lembrem-se: a busca do diagnóstico em dor crônica é obscura. Realmente pode não achar nada em exames de imagem ou físico que justifique a dor, mesmo assim está lá. Ai fica muito fácil de chamar a dor de psicológica. Claro que não é por ai. A não continuidade no tratamento também dificulta a maneira da evolução da dor (prognóstico). É importante que o profissional de saúde entenda que uma técnica (remédio, massagem, manipulações, acupuntura) pode não ser a ideal o tempo todo e mesmo assim insistimos. Cada pessoa tem o seu momento terapêutico. É difícil saber escolher a técnica que melhora se aplica naquele momento para a pessoa com dor crônica, mesmo que seja uma cirurgia. Olha que interessante: na internet hoje temos acesso a todos os tratamentos sobre dor no mundo, mas porque será que continuam sendo falhos em algum momento?

5. Auto tratamento – não tem problema nenhum a pessoa com dor se auto tratar, mas desde que seja orientada corretamente. Todo mundo adora ouvir conselhos de quem não entende nada do assunto. Todo brasileiro tem um pouco de advogado e médico, profundos conhecedores da lei e da saúde. Um grande perigo está em usar remédios por conta própria. Mas se a vida fosse fácil e barba fosse respeito, bode não tinha chifre. Existem livros, artigos, revistas, jornais, encartes, folhetos, internet, blog da dor crônica dizendo o que fazer. Procure ajuda vai!

—- Mas também o sistema de saúde:

1. Não tem ambulatórios de dor crônica suficientes para atender a todos, sendo que 75 a 85% das consultas são por dor no Brasil.

2. Não tem profissionais de todas as áreas da saúde capacitados para tratar dor crônica.

3. Encosta os pacientes em filas de tratamento e de exames que parece não ter fim e ai o tempo vai passando…

4. Deixa algo como o Ato Médico ser tão problemático sem necessidade.

5. Enfim…

A dor nas costas continua sendo um problema de saúde em geral. E todo mundo terá um dia alguma coisa por lá. Quando vai ser, onde, quando, quanto de dor, não se sabe. Mas se prepare, só não deixe ficar crônica.

Não se iluda em achar que está tudo bem em sentir dor a bastante tempo, que doi o tempo todo e que atrapalha sua vida.

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