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CINESIOFOBIA pela Dor

Para facilitar – Cinesiofobia = medo de se movimentar ou de uma nova lesão.

A dor crônica, por ser muitas vezes bastante limitante provoca reações físicas e psíquicas. Uma delas está relacionada ao medo de se movimentar ou de se machucar (Cinesiofobia). Esse medo é um comportamento natural que acaba de tornando anormal, ou seja, por causa da intensidade e / ou por causa da persistência da dor ao longo dos meses ou anos, a pessoa cria uma armadura de proteção. Formada por músculos e mantida pelo comportamento anormal, essa carapaça (armadura) é como uma tensão muscular involuntária, a pessoa não consegue apertar o botão off (desligar) do corpo, fica em alerta vermelho o tempo todo e não relaxa mesmo quando resolve descansar. Se preocupa com todas as coisas ao redor, prestando atenção naquilo que tem ou não condições de fazer com seu corpo. Muitas vezes não consegue diferenciar isso e acaba se machucando.

A pessoa evita movimentar-se, evita ficar em qualquer postura ou posição do corpo que piore ou possa aumentar a dor ou que ela ache que exista a possibilidade de se machucar. Isso provoca muita limitação no dia-a-dia, que é basicamente usar o corpo nas tarefas de casa, trabalho, esportes, cuidados pessoais, lazer. Além de evitar o movimento, sente-se vulnerável a dor e a uma possível lesão. isso também provoca um funcionamento inadequado dos músculos, onde alguns não conseguem contrair corretamente e outros não relaxam havendo desequilíbrio, muitas vezes de difícil organização.

Interessante é que isso tem tudo a ver com a definição de dor da Associação Internacional “experiência sensitiva e emocional desagradável, associada à lesão tecidual real ou potencial, ou descrita nos termos de tal lesão”, ou seja, tem que sentir incomodar e ser desagradável e pode ter ou pode vir a ter uma lesão ou falamos que tem e na verdade não tem, só dói mesmo.

Quanto menos você se movimenta, mais imobilizado – inativo – restrito - cansado fica. Antes o problema era só dor, agora para animar mais a festa terá o descondicionamento físico geral. Pra piorar, mais dor e mais limitação, formando um ciclo vicioso grave e de prognóstico (futura evolução do seu problema) ruim. Siga a sequência abaixo:

DOR → MEDO DE SE MACHUCAR → MEDO DO MOVIMENTO →  MENOS MOVIMENTO → INATIVIDADE E IMOBILISMO → DESCONDICIONAMENTO FÍSICO E MENTAL →  DOR AUMENTADA E DISTORCIDA

Imaginem só como não fica a cabeça da pessoa com cinesiofobia, em curto circuito total, pra quem gosta de fazer exercício então é difícil mesmo. Sem falar na ansiedade que isso provoca.

O tratamento da dor crônica pode ser muito prejudicado por causa disso, pois perde a participação ativa do paciente, o auto controle de sua dor e a dificuldade na realização de exercícios.

Outro aspecto é quando nós, profissionais de saúde (principalmente médicos e fisioterapeutas), restringimos e limitamos nossos pacientes nas suas atividades do dia-a-dia sem critérios ou conhecimento para tal. Associamos a dor com outros problemas de saúde ou exames de imagem, que frequentemente mostram pouca ou nenhuma associação com a dor crônica. Quando detonamos nosso paciente assim, causamos uma iatrogenia verbal, ou seja, pioramos sua condição de saúde apenas falando com ele. Mesmo que sem querer, provoca mais limitação e dor.

Lembro de uma paciente que eu atendia no nosso grupo de dor do Hospital dos Servidores, que se passasse alguém perto, principalmente pelas costas, ela dava um pulo e gritava alto, pensando que alguém poderia machucá-la ou aumentar sua dor pelo simples fato de tocar nas suas costas. Mesmo que este seja apenas um caso, a Cinesiofobia é mais comum do que a gente imagina.

As pessoas nestas condições seguem mais ou menos dois padrões:

  1. Costumam evitar os movimentos e posturas que provocam dor ou possível lesão, ficando mais inativos.
  2. Mesmo com dor, nada de ficar parado. Entretanto em algum momento a resistência do corpo e também da própria dor vai diminuindo, tornando-se o exemplo acima.

O futuro das pessoas com cinesiofobia é o aumento da dor e a diminuição da resistência do corpo (condicionamento), se não fizerem algum tratamento. Para os profissionais que trabalham ou gostam de estudar dor crônica, existe uma escala em processo de adaptação e validação para o português do Brasil chamada Escala Tampa para Cinesiofobia http://www.scielo.br/pdf/aob/v15n1/a04v15n1.pdf.

Outro artigo:

http://aje.oxfordjournals.org/cgi/reprint/156/11/1028

Esta escala, bastante simples inclusive, traz questões importantes sobre o comportamento de se evitar os movimentos e posturas que aumentam a dor, expectativas de tudo ser o pior possível e que o medo e a dor irá tornar a pessoa inválida (catastrofização), atitudes, reações e também o que a pessoa entende sobre suas limitações pelo medo da dor e movimento.

Claro que tudo isso é muito pessoal e dependerá das reações e comportamentos de cada um e também do impacto que a dor provoca na vida daquela pessoa. Não são todas as pessoas com dor crônica que tem medo de se movimentar. Mas vale a pena observar isso, pode fazer muita diferença no tratamento.

Os grandes pequeninos também eram sábios:

mm_yoda

Mestre Yoda. “a mente controla o corpo, pensamentos negativos, raiva e MEDO levam ao lado negro da força (dor)”. E tem gente que diz que star wars não serve pra nada. Tsc tsc.

Kuato,George

Mestre Kuato. “abra sua meeeeeeeeeeeente para mim”. Grande ser sábio mostrava que a mente aberta era sinônimo de controle do corpo = controle da dor.

até

Pada

  1. ju
    6, novembro, 2009 em 16:19 | #1

    Não sabia da existência dessa síndrome. Como vcs fisioterapeutas conseguem lidar com isso? Existe a possibilidade da ajuda de um psicólogo esportivo?

  2. padaartur
    6, novembro, 2009 em 18:12 | #2

    Ju, é difícil pois necessita de muita conversa e mudanças de crenças e paradigmas para que a pessoa consiga vencer o medo. Muitas vezes os pacientes conseguem se movimentar sem dor, mas o medo é mais forte. Imagine que ela já sofreu demais com dor e já se machucou várias vezes. Frequentemente esse é um fator que limita a evolução do trabalho da fisioterapia e a presença de um psicólogo(a) ajuda muito a entender o medo daquela pessoa. Ninguém faz milagre, só a religião, então temos que trabalhar em equipe para ter contribuições das diversas áreas. Não posso falar pela psicologia esportiva, mas quanto trabalhei com uma por 5 anos os atletas que se machucavam tinham muito medo de nova lesão mas ao mesmo tempo uma grande ansiedade de retornar ao esporte. infelizmente tivemos atletas que se trataram em outros lugares e se machucaram novamente, e eram jovens. Pra cabeça deles era horrível. As lesões de acumulavam e o atleta perdia rendimento. As vezes também a dor é muito mal interpretada pelos membros de uma comissão técnica, achando que é psicológica ou medo ou frescura. Mas, toda dor é psicológica né???? bj

  3. Humberto
    7, novembro, 2009 em 11:46 | #3

    Oi Artur,
    Acho que posso contribuir um pouco com esta postagem. Como você sabe, eu trabalho em uma enfermaria de pediatria e é extremamente comum que crianças submetidas a cirurgia de epifisiodese proximal do fêmur para o tratamento da epifisiólise (escorregamento da placa de crescimento) evoluam com verdadeiro pavor de movimentar a perna operada. Embora seja uma cirurgia com acesso cirúrgico pequeno e sem grande manipulação de osso e tecidos moles.
    Fica claro nestes casos que os pacientes tem medo de sentir dor, e o mais interessante o medo costuma ser mais intenso naquelas crianças que vivenciaram um processo doloroso mais arrastado.
    Bem, a norma do hospital é colocar estes pacientes de pé e deambulando com muletas (carga zero no membro operado) o mais rápido possível. Nessas horas, a parte física do trabalho é a mais fácil. O complicado é a papoterapia para provar ao paciente que é possível se mevimentar sem sentir dor.
    Obviamente a experiência que eu relato é a de uma condição aguda, facilmente tratada e com muita chance de sucesso. . . o problema real são os pacientes com dor crônica… aí o buraco é mais embaixo.
    Parabéns pela postagem
    Abraços

  4. joão guilherme
    10, novembro, 2009 em 12:14 | #4

    Fala Artur,

    Gostaria de parabenizar o blog e as matérias postadas! Uma iniciativa de fomento ao conhecimento que abrange profissionais e clientes (pacientes). Acreditando que o conhecimento pode alterar significativamente a qualidade de vida.
    Quando falamos de doenças e disfunções será que profissionais da saúde, o doente e o entorno do doente falam da mesma realidade? (Mirko Grmek)
    Reflito nesse momento sobre o sentimento que envolve sofrimento(medo), os norte-americanos usam o termo (illness), e nesse sentido apenas o paciente tem acesso a esse ponto. A literatura científica usa ainda o termo disease para se referir a conceitualização do ponto de vista do profissional e usa um terceiro termo (sickness) para designar a doença do ponto de vista do paciente.
    Fica uma pergunta:
    Como podemos desenvolver a relação terapeutica, Fisioterapeuta-paciente? obs:Partindo do pressuposto que o conhecimento técnico deve ser inerente nesse processo.

    Sinceros parabéns Artur !!

    Abraço
    João Guilherme

  5. padaartur
    10, novembro, 2009 em 12:43 | #5

    Fala joão, obrigado pelo comentário. Vou passar minha opinião sobre sua pergunta. A relação entre o Fisio e o paciente de dor crônica deve ser muito honesta, principalmente pelo sofrimento e incapacidade que a dor provoca e pela percepção distorcida da dor. Explicar isso e que a dor crônica é na verdade uma doença crônica faz parte dessa relação para criar confiança e adesão ao programa de tratamento. Hoje o que sempre discutimos sobre o modelo biopsicossocial precisa ser aplicado a saúde, em todos os processos de doença, não só na dor crônica. É uma visão muito mais humana e holística, mostrando que a pessoa que está doente (por dor no caso) é responsável pela sua melhora. Infelizmente na fisioterapia, continuamos achando que as técnicas são o mais importante. Lembro de um colega fisio que me falou o seguinte: “eu sou formado em várias técnicas e tentei todas: terapia manual, eletro, estabilização, osteopatia, acupuntura e nada melhorou a paciente. Deve ser psicológica a dor dela”. É fácil chamar a dor de psicológica e se isentar da responsabilidade de tratar, como se não fosse da sua área de atuação. Enquanto a técnica for mais valorizada que o profissional, a gente nunca vai entender o que acontece com os pacientes de dor crônica. Enquanto o que fazemos não interferir na vida da pessoa, com modificações de comportamento, hábitos inadequados, crenças e atitudes físicas, psíquicas e sociais, vamos cronificar ainda mais a dor, mantendo o paciente doente e desacreditado. Grande abraço

  6. marlene
    10, dezembro, 2009 em 02:21 | #6

    EU SOU MAIS OU MENOS ASSIM,EU COSTUMO DIZER QUE EU SOU MAIS FORTE QUE MINHAS DORES, MAS,ESTOU SENDO VENCIDA POR ELAS ,NÃO ESTOU AGUENTANDO MAIS. ESTOU ENTREGANDO OS PONTOS POIS AS DORES NÃO PASSAM . VOLTEI A SER DEPRESSIVA,ESTOU FAZENDO TRATAMENTO COM ANTDEPRESSIVOS E INJEÇÕES,PARA ALIVIAREM AS DORES.PRECISO DE AJUDA.POR FAVOR NÃO AGUENTO MAIS TOMAR REMÉDIOS, MEXEM COM ESTOMAGO ,FIGADO,E ATÉ COM OS INTESTINOS.

  7. padaartur
    11, dezembro, 2009 em 21:04 | #7

    olá marlene. me mande um email sobre o que está acontecendo com vc que vamos mantendo contato para que possamos ajudar vc
    um abraço

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